CONECTIVISMO: Uma nova teoria da Aprendizagem?

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Resumo:

No seu artigo “Connectivism: A Learning Theory for the Digital Age”, George Siemens apresenta uma teoria alternativa de aprendizagem, adaptada à nova realidade tecnológica e à sociedade em rede. O Conectivismo postula que o conhecimento se constrói através de uma rede de conexões, sendo a aprendizagem a capacidade de construir conhecimento em conexão. Neste sentido, o conhecimento está disponível através de redes e o acto de aprender não é mais do que a capacidade de construir uma ampla rede de conexões.

Apesar do reconhecimento da importância do Conectivismo para o avanço de novas pedagogias integradas na sociedade em rede, o Conectivismo não é consensualmente aceite enquanto teoria da aprendizagem. Neste artigo pretende-se abordar esta discussão, analisando as várias críticas e defesas do Conectivismo enquanto teoria da aprendizagem.

Palavras-chave:

Conectivismo, aprendizagem, conhecimento conectivo, sociedade em rede, teorias da aprendizagem.

Introdução:

Existimos actualmente numa Sociedade em rede, onde a tecnologia se desenvolve vertiginosamente e, com ela, todas as áreas de trabalho e serviços dessa sociedade. Os indivíduos vêm-se perante a necessidade de seguir este ritmo do desenvolvimento, levantando-se diversas questões que desafiam o modelo tradicional de entender o conhecimento e a aprendizagem. A própria natureza do conhecimento é questionada.

Estas alterações têm implicações directas na forma como os indivíduos acedem ao conhecimento, mas, também, na forma como constroem o conhecimento. Há que considerar uma “nova” categoria de conhecimento, para além dos conhecimentos qualitativo e quantitativo: o conhecimento conectivo.

Conhecimento Conectivo:

O conhecimento conectivo baseia-se no reconhecimento de padrões em rede. Para que um determinado padrão tenha significado, tem de ser reconhecido, ou seja, a construção do conhecimento é a combinação de dois elementos: a percepção (o padrão a reconhecer) e o perceptor (quem reconhece).

Downes (2005), em An Introduction to Connective Knowledge, defende que o conhecimento conectivo representa uma terceira categoria de conhecimento:

A property of one entity must lead to or become a property of another entity in order for them to be considered connected; the knowledge that results from such connections is connective knowledge. This is more than just the existence of a relation between one entity and another; it implies interaction.

O conhecimento produzido por esta interacção distingue-se do conhecimento probabilístico, um tipo de conhecimento quantitativo, que apenas observa a distribuição e comparação entre dados; é também mais do que a mera comparação de qualidades (conhecimento qualitativo).

Nas palavras de Downes (2005):

Connective knowledge requires an interaction. More to the point, connective knowledge is knowledge of the connection. If Janet votes a certain way because I told her to, an interaction has taken place and a connection has been established. The knowledge thus observed consists not in how Janet and I will vote, nor in how many of us will vote, but rather, in the observation that there is this type of connection between myself and Janet.

Conectivismo:

Face à incapacidade das teorias de aprendizagem mais usadas no desenho de ambientes instrucionais (O  Behaviorismo, o Cognitivismo e o Construtivismo) de darem resposta à nova realidade imposta pelo avanço da tecnologia e que se traduz nas mais variadas formas de comunicação e aprendizagem formal, informal e não formal, Siemens (2004) propõe uma alternativa para a era digital, o Conectivismo como nova teoria da aprendizagem, no artigo Connectivism: A Learning Theory for the Digital Age.

Todas as existentes teorias da aprendizagem partem da noção de que o conhecimento é um objectivo (ou um estado) de que é possível apropriar-se quer através de raciocínio ou experiências.

Estas teorias estão focadas no próprio processo de aprendizagem, e não no valor do que está a ser aprendido. Num mundo em rede, vale a pena explorar a própria forma de adquirir informações. A necessidade de avaliar o valor de aprender alguma coisa é uma meta-competência que é aplicada antes mesmo da aprendizagem propriamente dita ter início. Quando o conhecimento é escasso, o processo de avaliação do valor presume-se ser intrínseco à aprendizagem. Quando o conhecimento é abundante e há um constante aumento da informação, a rápida avaliação do conhecimento revela-se importante. A capacidade de sintetizar e reconhecer conexões e padrões é uma competência valiosa.

O Conectivismo surge com os pressupostos de que a aprendizagem, vinculada à tecnologia, parte do caos, da rede e de teorias de complexidade e de auto-organização. A aprendizagem pode residir fora de nós mesmos (dentro de uma organização ou um banco de dados), centra-se sobre a ligação fixa de informação especializada, e as conexões que nos permitem aprender mais são mais importantes do que o nosso estado actual de conhecimento.

The pipe is more important than the content within the pipe. Our ability to learn what we need for tomorrow is more important than what we know today. A real challenge for any learning theory is to actuate known knowledge at the point of application. When knowledge, however, is needed, but not known, the ability to plug into sources to meet the requirements becomes a vital skill. As knowledge continues to grow and evolve, access to what is needed is more important than what the learner currently possesses.

Siemens (2004)

Estes são os princípios que o Conectivismo de Siemens postula:

Aprendizagem e conhecimento assentam na diversidade de pareceres.

A aprendizagem é um processo de conectar elos especializados ou fontes de informação.

A aprendizagem pode residir em mecanismos não-humanos.

A capacidade para conhecer mais é mais importante do que aquilo que é actualmente conhecido.

Fomentar e manter conexões é necessário para facilitar a aprendizagem contínua.

A capacidade de ver conexões entre áreas, ideias e conceitos é uma competência nuclear.

A conservação de um conhecimento exacto e actual é a intenção de todas as actividades de aprendizagem conectivas.

O Processo de tomada de decisão é em si um processo de aprendizagem. Escolher o que aprender e o significado da informação recebida deve ser visto à luz de uma nova realidade: embora haja uma resposta certa agora, ela pode ser errada amanhã devido a alterações nas informações que afectam a decisão.

Críticas ao Conectivismo enquanto teoria de Aprendizagem:

A noção de uma nova teoria de aprendizagem baseado em estruturas de rede, ambientes complexos em constante alteração, trouxe algumas críticas.

Plön Verhagen (2006), na sua crítica do Conectivismo (Connectivism: a new learning theory?), argumenta especificamente para a ineficácia de uma teoria baseada em “filosofias infundadas”.

As críticas de Verhagen (2006) são, muito resumidamente, centradas em três áreas:
1. O Conectivismo é uma teoria de aprendizagem ou uma pedagogia?
2. Os princípios preconizados pelo Conectivismo estão presentes em outras teorias da aprendizagem.
3. A aprendizagem pode residir em mecanismos não-humanos?

Bill Kerr (2007), outro crítico do Conectivismo, postula que Conectivismo é uma teoria desnecessária, porque, na sua opinião, as actuais teorias atendem satisfatoriamente às necessidades de aprendizagem desta nova era, tecnologicamente conectada.

Kerr (2007) sustenta que a relação entre os ambientes de conhecimento internos e externos foi tida em conta na formulação do construtivismo social de Vygotsky, muito antes de qualquer explicação fornecida pelo Conectivismo. Da mesma forma, Kerr afirma que o construtivismo de Papert e a cognição activa e incorporada (embodied active cognition) de Clark também forneceu explicações prévias ao Conectivismo.

A crítica de Kop & Hill (2008) em Connectivism: Learning theory of the future or vestige of the past? não se afasta muito das de Verhagen e de Kerr:

A paradigm shift, indeed, may be occurring in educational theory, and a new epistemology may be emerging, but it does not seem that connectivism’s contributions to the new paradigm warrant it being treated as a separate learning theory in and of its own right.  Connectivism, however, continues to play an important role in the development and emergence of new pedagogies, where control is shifting from the tutor to an increasingly more autonomous learner.

Kop & Hill (2008)

A defesa

A resposta de Siemens (2006) à crítica de Plön Verhagen, surge com um extenso e bem fundamentado artigo – Connectivism: Learning Theory or Pastime of the Self-Amused? – onde o autor reafirma alguns dos postulados do Conectivismo, justificando a sua posição com a análise detalhada das teorias de aprendizagem existentes. Admitindo ter havido evoluções, decorrentes da evolução da tecnologia, em relação ao seu artigo original, Siemens (2006) parte das cinco questões fundamentais para distinguir uma teoria da aprendizagem de Ertmer’s and Newby’s, citado por Mergel (1998) cf. Siemens (2006):

1. Como ocorre a aprendizagem?
2. Quais os factores que influenciam aprendizagem?
3. Qual é o papel da memória?
4. Como ocorre a transferência?
5. Que tipos de aprendizagem são melhor explicados por esta teoria?

Property

Behaviourism

Cognitivism

Constructivism

Connectivism

How does learning occur?

Black box—observable behaviour main focus

Structured, computational

Social, meaning created by each learner (personal)

Distributed within a network, social, technologically enhanced, recognizing and interpreting patterns


Influencing factors

Nature of reward, punishment, stimuli

Existing schema, previous experiences

Engagement, participation, social, cultural

Diversity of network


What is the role of memory?

Memory is the hardwiring of repeated experiences—where reward and punishment are most influential

Encoding, storage, retrieval

Prior knowledge remixed to current context

Adaptive patterns, representative of current state, existing in networks


How does transfer occur?

Stimulus, response

Duplicating knowledge constructs of “knower”

Socialization

Connecting to (adding) nodes


Types of learning best explained

Task-based learning

Reasoning, clear objectives, problem solving

Social, vague (“ill defined”)

Complex learning, rapid changing core, diverse knowledge sources

Quadro 4. Teorias da Aprendizagem. George Siemens (2006: 36).

Esta análise comparativa permite, não só justificar o Conectivismo enquanto teoria da aprendizagem (já que responde às cinco questões fundamentais), mas também evidenciar as limitações das teorias existentes para a era actual. O Conectivismo reúne conceitos de diferentes domínios num novo caminho. O Conectivismo é único, reunindo ideias de neurociência, ciência cognitiva, teoria de rede, sistemas complexos e disciplinas relacionadas.

Num artigo de 2008 (What is the unique idea in Connectivism?), Siemens (2008 a) apresenta cinco razões que justificam o Conectivismo como único:

  1. O Conectivismo é a aplicação de princípios de rede para definir tanto o conhecimento como o processo de aprendizagem. O conhecimento é definido como um padrão particular de relações e a aprendizagem é definida como a criação de novas ligações e padrões, bem como a capacidade de manobra em torno de redes existentes / padrões.
  2. O Conectivismo aborda os princípios da aprendizagem a vários níveis – biológico / neurais, conceituais, sociais e / ou exteriores.
  3. O Conectivismo incide sobre a inclusão da tecnologia como parte de nossa distribuição de cognição e de conhecimentos. O nosso conhecimento reside nas conexões que se fazem a outras pessoas ou às fontes de informação, tais como bases de dados.
  4. Contexto. O Conectivismo reconhece a natureza fluida dos conhecimentos e ligações baseadas em contexto. Como tal, torna-se cada vez mais indispensável que não nos concentremos em conhecimentos pré-definidos, mas nas nossas interacções uns com os outros, e no contexto em que as interacções ocorrem.
  5. Entendimento. Coerência. Interpretação. Significado. Estes elementos estão presentes no construtivismo, menos no cognitivismo e ausentes no behaviorismo. No Conectivismo, argumenta-se que o rápido fluxo e abundância de informações elevam estes elementos a uma importância crítica. O Conectivismo encontra as suas raízes no clima de abundância, mudanças rápidas, diversas fontes de informação e perspectivas e os críticos precisam de encontrar uma forma de filtrar e fazer sentido do caos.

Conclusões

A simples quantidade de informações disponíveis para a maioria das pessoas, hoje, é esmagadora. Como podem as actuais teorias de aprendizagem ajudar-nos a encarar a informação como um processo contínuo, em vez de um evento?

Na sua apresentação para o Encontro sobre Web 2.0, organizado pela Universidade do Minho em Outubro de 2008 – New structures and spaces of learning: The systemic impact of connective knowledge, connectivism, and networked learning, Siemens (2008 b) volta a apresentar a sua visão de uma ecologia da aprendizagem como a resposta para a pergunta colocada acima.

Uma ecologia da aprendizagem pode ser definida como um ambiente que promove e apoia a formação de comunidades e redes. No actual contexto educacional, uma sala de aula é uma ecologia. A aula permite a emergências de certas tarefas de aprendizagem e comportamentos e, pelo seu design, desencoraja outros. Mais crítico, uma sala de aula é um espaço delimitado fisicamente. A aprendizagem está, assim, delimitada, estruturada e gerida por um único perito (o professor).

Em contrapartida, a Internet pode ser vista como uma ecologia de aprendizagem com diferentes potencialidades. A Internet é um centro de caos criativo.

Nas palavras de Siemens (2008 b):

Educationally, the challenge is one of defining the type of ecology that will permit the formation of the broadest array of networks and communities to address the desired learning tasks and outcomes. The concern is not with structure itself, but rather with the assumption that structure is required across all spaces of learning.

Referências bibliográficas:

Downes, Stephen (2005). An Introduction to Connective Knowledge. Disponível em http://www.downes.ca/cgi-bin/page.cgi?post=33034 [Acedido em 19 de Julho de 09]

Kerr, Bill (2007). A Challenge to Connectivism. Transcrição da comunicação apresentada na Online Connectivism Conference, Fevereiro 2007, Universidade de Manitoba. Disponível em  http://ltc.umanitoba.ca/wiki/index.php?title=Kerr_Presentation [Acedido em 19 de Julho de 09]

Kop, Rita & Hill, Adrian (2008). Connectivism: Learning theory of the future or vestige of the past? The International Review of Research in Open and Distance Learning, 9 (3). Disponível em http://www.irrodl.org/index.php/irrodl/article/view/523/1103 [Acedido em 19 de Julho de 09]

Mota, José (2009). O Conectivismo e a Aprendizagem na Rede (Cap. IV). Da Web 2.0 ao e-Learning 2.0: Aprender na Rede. Disponível em http://orfeu.org/weblearning20/4_2_Conectivismo [Acedido em 19 de Julho de 09]

Siemens, George (2008 a). What is the unique idea in Connectivism? Disponível em http://www.masternewmedia.org/news/2008/08/09/educational_models_and_learning_in/ [Acedido em 19 de Julho de 09]

Siemens, George (2008 b). New structures and spaces of learning: The systemic impact of connective knowledge, connectivism, and networked learning. Comunicação apresentada no Encontro sobre Web 2.0, Universidade do Minho, Braga. Disponível em http://elearnspace.org/Articles/systemic_impact.htm [Acedido em 19 de Julho de 09]

Siemens, George (2006). Connectivism: Learning Theory or Pastime of the Self-Amused? elearnspace. Disponível em http://www.elearnspace.org/Articles/connectivism_self-amused.htm [Acedido em 19 de Julho de 09]

Siemens, George (2004). Connectivism: A Learning Theory for the Digital Age. Disponível em http://www.elearnspace.org/Articles/connectivism.htm [Acedido em 19 de Julho de 09]

Siemens, George (2003). Learning Ecology, Communities, and Networks Extending the Classroom. Disponível em http://www.elearnspace.org/Articles/learning_communities.htm [Acedido em 19 de Julho de 09]

Verhagen, Pløn (2006) Connectivism: a new learning theory? Disponível em http://www.surfspace.nl/nl/Redactieomgeving/Publicaties/Documents/Connectivism%20a%20new%20theory.pdf [Acedido em 19 de Julho de 09]

7 Respostas

  1. Keep working ,great job!

  2. O material é excelente gostei muito

  3. Maybe you could make changes to the blog name CONECTIVISMO: Uma nova teoria da Aprendizagem? Maria @ UAb to something more specific for your content you write. I liked the post all the same.

  4. Excelente analise. Será compartilhada com meus pares. Parabéns pela pesquisa.

  5. Excelente pesquisa. Parabens

  6. Parabéns! Pesquisa enriquecedora!

  7. […] Leal, Maria (2009). Conectivismo uma nova teoria de aprendizagem?. Acessado em fevereiro, 1, 2014 em https://lealmaria.wordpress.com/2009/07/31/conectivismo-uma-nova-teoria-da-aprendizagem/ […]

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